terça-feira, 13 de outubro de 2020

Despercebido

 Os maiores amores

são os que vão passar despercebidos
escondidos nos cantos dos olhos
e no final soluçado dos sorrisos

Os maiores amores
são limonadas no calor 
são os que vão nos cobrir no frio
são os chás para dor
a preocupação e o calafrio.

Quando todos os outros amores se forem
e de nós só restar a pele rala, outrora firme
nossos maiores afetos
os que sempre vimos embaçados, sem foco
estarão conosco.

Os maiores amores
não coram nosso rosto
e nem a pele se arrepia
são as mantas antigas, desfiadas
não são toalha de mesa de visita

Os maiores amores 
são os cactos de poucas flores,
perenes com pouca água, pouca lembrança
pouca luz

Os pequenos gongolos rastejando pela casa
nunca terão a atenção das borboletas
belas e ligeiras,
ainda que por perto fiquem até que deles
sobre apenas a carcaça seca

Os maiores amores
são os que temos como certos,
que decerto têm o que lhes sobra,
e são os que sobram,
quando nada mais nos resta.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Vão



 Vão

Num dia pensei que se tu fosses,
foste tu quem fosses,
eu me findaria.
Noutro dia, dei-me conta
de que todos vão,
por vontade ou não.
Pois na verdade,
que grafada já vem pronta,
jamais há quem fique.
E na ponta da língua trago
 o discurso vão
de que se vão porque não são meus.
E de que não perco
o que a mim nunca pertenceu.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Mare Vero

Quem é "escravo da verdade", nela se afoga como quem menospreza o mar...
Cada um vive em seu próprio mundo imaginário, e em cada mundo a verdade é diferente, mares diferentes onde a correnteza segue em direções próprias...

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Ou-trem


No compasso do caminho,
que parece seguir apenas em frente,
já fui vagão.
Já levei em mim o que não era meu.
Fui carona de quem, em mim,
viu atalho.
Resvalo de si.

Mas antes disto, 
também fui carga.
Já me arrastei de um lado a outro,
levado por curvas que não eram feitas por mim.
Já fui pesado, etiquetado
comprado e vendido
aguardado e rejeitado.

Já fui estação.
Aguardando incólume por paradas breves,
esperando por quem nunca desembarcou.
Lamentei em chuva o que vi o ar deslocado levar,
pois a estação é ponto de parada,
mas nem mesmo dos perdidos é lar.

Mas há de chegar o dia,
em que serei locomotiva.
E então outros me acompanharão
ou simplesmente ficarão para trás.
Envoltos no vapor que minha certeza será.
Vapor de quem, outrora vagante,
agora, vagalume.

sábado, 24 de novembro de 2018

A gente nem sabe o que tem.

Só sabe que é tão ruim,

que tem dias que é só dor.

E em outros,

é dor também...

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Não, não era o vento

"Às vezes ouço passar o vento", diz Fernando...

Mas não, não era vento.

Era tempo.

Seguindo.

E nos deixando para trás.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Cães e aço

Eu me desfiz de tudo...

Mas queria mesmo era me desfazer das pessoas...

... esses pedaços de carne que andam e desapontam.

Porque eu, que também ando,

queria só parar.

E deixar.

 ...de me desapontar. 

sábado, 29 de setembro de 2018

Ególatras Anônimos

Não importa o quão na merda eu esteja, eu me levanto e busco, tento fazer o que é preciso ser feito. Apenas porque alguém tem de fazer. 
Eu auxilio a quem posso. Apenas porque eu posso. Porque, afinal, se eu posso, eu não deveria? Omitir-me daquilo que não me gera ganho direto deveria ser mesmo o melhor caminho?
Mas não deixo de imaginar o quanto minha vida, e creio que da maioria, seria melhor se quem pudesse, fizesse. Se quem pudesse ajudar, levantasse e fizesse, apenas porque alguém tem de fazer.
Mas para isso, as pessoas precisariam levantar suas cabeças. Olhar ao seu redor. Perceber. Enxergar outras pessoas. Outras vidas que não giram em torno das suas, vidas que nem sempre tem algo a oferecer em troca da sua atenção, do seu cuidado.  
Mas a posição mais comum no uso dos modernos smartphones, creio eu, está correta: um pouco acima do umbigo, que é para onde todos estão realmente olhando. 
E no fim, tudo isto é uma grande retórica, porque eu não quero realmente ser notado por essas pessoas. Eu quero é não precisar ser notado por elas. Alheio ao arreio que apenas aparelhou aquilo que sempre fomos e sempre seremos: primatas fascinados demais pelo fogo para lamentar o incêndio.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018


Gentilezas Falsas

Sejam gentis... Mesmo quando não tiverem razão para ser.  Sejam gentis, e se não souberem ser, finjam. Sorriam mesmo sem entender. Porque eu sei o peso do desprezo. Eu sei o preço do desapreço. O peso da rudeza que carrego mesmo sem nunca ter pedido por ela.
Carrego em mim cada olhar desviado.
Carrego, com alças que me cortam os ombros, o desdenho sobretudo daqueles que amei e de quem só queria um afago, um sorriso, uma gentileza ainda que falsa.
Em cada pessoa que se diz autêntica e verdadeira, jaz a alegria e a motivação daqueles que ouviram verdades que por mais verdadeiras que fossem, careciam de cuidado, de carinho. Mais vale um elogio calculado que leva o outro ao próximo passo, do que a crítica mal pensada que aleija tantos de nós. Não afague todos os cães nas ruas se não gosta deles, mas não os apedreje para que então fujam até dos que os querem bem. Não maltrate quem levará isso consigo e arrastará como bolas de ferro que nos impedem de ao menos tentar. Nem todos vão ignorar, relevar ou retrucar. Na dúvida, seja gentil. Não seja verdadeiro, autêntico. O mundo já tem autenticidade de sobra. O que falta é gentileza, ainda que falsa.


terça-feira, 14 de agosto de 2018



Tu és importante para quem?
A quem, te impor um tanto, convém?

Somos importantes para o outro na exata proporção da função que temos em sua vida. 
Quanto menor a função, mais desimportantes e descartáveis seremos.
O lugar daquilo que de nada serve é o lixo. Porque até na coleção há o adorno, de si ou do ego.

E antes que se diga que até para o lixo há serventia, para quem descartou, de fato, não havia.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

domingo, 6 de maio de 2018

a chuva que tomava sua alma
era tanta, e tão fria
que embaçara seu coração 
tal como uma taça, já vazia de vinho,
 se embaça 
com o hálito quente dos lábios 
que, já sem ter o que sorver, 
se vão

domingo, 22 de abril de 2018

Inferno ou céu




Do fundo da minha dor, indecisa como a luz de uma vela
ou do alto da minha lucidez, visitante como um beija-flor
desejo apenas
que você arda ou se regozije
no inferno ou céu de suas próprias escolhas

quinta-feira, 15 de março de 2018

domingo, 21 de janeiro de 2018

me sinto como um náufrago... preso nessa vida, como que preso em uma ilha...

sugando o néctar das flores que são os poucos momentos doces da vida,

bebendo a água das folhas, do pouco que há de amor nessa existência,

esperando, lúcido e desesperado, pelo resgate

ou pelo fim



nota: versos sobre como é viver nesses tempos, nesse planeta, nessa sociedade ocidental moderna.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Caminho

Assim que se sai da casa da Tristeza – que adora fazer visitas, mas escolhe a dedo quem chama para morar com ela – à direita, subindo a rua, é possível ver a Negação cortando a grama de sua casa. Mais à frente a Raiva tateia no chão de sua varanda em busca de seus óculos. No alto da rua, mais umas tantas casas à frente, mora a Esperança. Essa aceita qualquer visita, há quem passe a vida encostado à sua varanda, sua casa é uma algazarra, ela não se preocupa em arrumar e não se importa que baguncem. Um pouco antes dela, uma casa de poucas janelas, de pouca mobília e de portas sempre fechadas. Lá, quase no meio do caminho entre a Tristeza e a Esperança, vive a Lucidez. Ela quase não sai de casa e recebe poucas pessoas, que chegam e saem muitas vezes sem nem passar da varanda, trocando apenas poucas palavras. Com ela, ninguém mora. Dizem que lá dentro o silêncio é tanto, que nem o Tempo, que já viveu com ela e é o mais paciente de todos, 
conseguiu ficar.

22 de novembro de 2017.


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Espelho



Uma tristeza que, se fosse chuva, seria chuva fina

cada um de nós em sua ilha particular 
cercado por outras ilhas, 
fingindo que todos juntos somos continentes

barcos a remo 
esperando pelo vento que nunca vem

nada realmente faz sentido
mas as coisas são como são
fazendo sentido ou não
ostentando felicidade
ou nutrindo solidão

antes odiado em voz alta
que amado em silêncio
amargo silêncio

a parte de mim que morre
quando um amor morre
prova que jamais serei quem quero
sou quem o outro quer - é ele quem me vê
serei salvador, serei carrasco
amor ou desamparo
e se nunca serei quem imagino ser, 
de pouco adianta me defender

sou o espelho que não reflete a mim
reflito o olhar
de quem me aponta ou me abraça
me vê com a graça do começo
ou o rancor do fim


Agosto de 2017





quinta-feira, 15 de junho de 2017

Trecho de “Um balé em campo minado”


o tempo sopra no meu ouvido feito um fantasma
que me avisa sobre o espaço entre o início e o fim

...


e dançando sobre essa fina camada de gelo
nos despedimos, cansados dos nós
nós, bailarinos.



Trecho de “Um balé em campo minado”. 372 dias atrás.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Lugar algum

Em algum lugar de mim
me perdi.
não que seja possível me perder de mim mesmo,
infelizmente.
me perdi de tudo, do todo

Do alto da ravina,
não me parece caber o pulo
ainda que meu cansaço o grite
poderia contornar
e encontrar novas colinas
para então também contorná-las
poderia
mas me sento e respiro a brisa
me sento e sinto a terra
me sinto e assento a alma
e dali só o sonho me leva
já que as asas não tenho mais

Em algum lugar de mim
me perdi.
não que seja possível me perder de mim mesmo,
infelizmente.


Junho de 2017.

sexta-feira, 10 de março de 2017

O posso e o poço

Em que medida
não somos nós a falha?
Em que medida não somos nós
que transformamos a vida 
nesse emaranhado de caminhos que não se cruzam
em viagens só de ida

Nós, vivos, perecemos
e nos despedimos
flores já despetaladas dizendo adeus
àquelas que o vento abraçou

Nossa imensidão se encerra 
na caixa de nossas próprias crenças
porque no fim, o que irá nos resumir?
somos o tanto que deixamos 
o tanto que recebemos
ou o tanto que negamos?
seremos, então, a chegada 
ou a despedida?

                                                     Novembro, 2016.